"Los Silencios" representa o Brasil na Quinzena do festival de Cannes

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"Los Silencios" representa o Brasil na Quinzena do festival de Cannes

"Los Silencios"
Na noite dessa sexta-feira (11), Cannes vai mergulhar nas águas misteriosas de uma ilha da Amazônia, levado pelas mãos da diretora paulista Beatriz Seigner até uma região sul-americana povoada de fantasmas: políticos e afetivos. É ela quem dirige a coprodução entre Brasil, Colômbia e França Los Silencios. Enrique Diaz - que anda roubando as cenas na superssérie da Globo Onde Nascem os Fortes e que brilhou no seriado O Mecanismo - integra o elenco deste projeto escalado para a Quinzena dos Realizadores, com uma sessão matinal, sempre cheia, e outra no fim da tarde, também muito concorrida. É um evento paralelo à briga pela Palma de Ouro, que completa 50 anos em 2018 com uma seleção de longas-metragens que anda atraindo bons olhares da crítica europeia
“Los Silencios é um filme de rio. É um river movie no qual o Amazonas tá o tempo todo nos nossos pés e conduz as pessoas. O elemento da água, no rio, na chuva, nas lágrimas, está presente o tempo inteiro”, disse Beatriz ao Omelete. “A Ilha da Fantasia surgiu no meio do rio Amazonas há uns 20, 30 anos. Muitos imigrantes que chegam do Brasil, do Peru ou da Colômbia vão morar lá. Muito mais do que as fronteiras que a gente coloca, essa região amazônica tem uma identidade muito próprio seja pela questão indígena seja pela luta pela terra, por moradia. É uma questão que toca todos os países latino-americanos... todos os países em processo de descolonização”.
Pelas bordas do rio Amazonas, o filme apresenta os conflitos pessoais de Amparo (Marleyda Soto), que tem que lidar com o desaparecimento da filha e do marido (Diaz), enquanto espera seus documentos para passar pela fronteira entre o Brasil, a Colômbia e o Peru. Ela foge dos conflitos armados na região. Para o roteiro do filme, que também é assinado por Beatriz, a diretora conversou com cerca de 80 famílias colombianas vivendo no Brasil e na região da fronteira. Sua equipe é formada majoritariamente por mulheres: Sofia Oggioni assina a direção de fotografia; Renata Maria foi responsável pela montagem; a direção de arte ficou a cargo de Marcela Gómez; Ana María Acosta assina o figurino e Mari Figueiredo, a maquiagem.
“Escolhi filmar num espaço que é um ‘não lugar’, ou seja, um lugar de passagem, onde as pessoas estão em trânsito, indo ou vindo de outro lugar. É um lugar que fica submerso no rio durante quatro meses ao ano. É um lugar entre vivos e mortos, não como um purgatório, mas como local de conexão entre esferas de existência”, disse a cineasta, conhecida antes por Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano (2010).


Também na sexta, na Semana da Crítica, Cannes vai curtir a coprodução Brasil-Portugal Diamantino, sobre os delírios de um jogador de futebol numa jornada onírica. Neste sábado, Cannes vai enfim conferir o que muitos têm chamado de “a obra-prima” de Cacá Diegues: O Grande Circo Místico. Adaptada da poesia de Jorge de Lima, o filme tem atuações magistrais de Jesuíta Barbosa e Mariana Ximenes no périplo de um século da vida de uma trupe circense.
Na competição pela Palma de Ouro, a quinta-feira foi um dia de extremos. Pela manhã, o musical russo Leto incendiou o balneário com um retrato alegre e comovente da cena roqueira de Leningrado nos anos 1980: sua fotografia é um desbunde. Pela noite, Christophe Honoré, o mais equivocado dos diretores franceses que integram um seleto clube de queridinhos locais de Cannes, deu mais uma prova de sua nulidade criativa com Plaire, Aimer et Courir Vite, uma love story gay sobre projetos literários e afetivos fracassados. Um dublê de escritor falido vive um esboço de relação com um rapaz bissexual que desdenha de uma jovem cheia de desejo por ele. O retrato das mulheres no filme raspa o limite da misoginia, como acontecia em Canções de Amor (2007), filme desastroso que deu fama a Honoré... sabe-se lá por que razão.
Nesta sexta passa pela Croisette o aguardado Cold War, novo trabalho do polonês Pawel Pawlikowski, premiado com o Oscar de filme estrangeiro em 2015 por Ida. Ele agora narra uma história de amor que se ambienta em vários países europeus no auge da Guerra Fria.
Até aqui, os filmes que mais se destacaram na Croisette, fora Leto, são o drama americano Wildlife, dirigido pelo ator Paul Dano, e o a fábula sombria Border, da Suécia, sobre uma oficial de fronteira com faro aguçado que se deixa seduzir por uma criatura misteriosa.

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