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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Não há show que não seja político

Roger Waters abriu a discussão após show em São Paulo
Dos shows que vi na vida:
Em 1985, Chet Baker no Hotel Nacional, em São Conrado, reclamando da banda que o acompanhava. Tocavam jazz de modo agressivo. Chet queria um som, o seu som, delicado. A plateia decepcionada com a agressividade da banda.
Em 1987, Canecão. A banda pós-punk P.I.L. Toca para uma plateia de punks que os consideram traidores do movimento. A plateia cospe o tempo inteiro na banda. John Lydon não se importa. Respeita porque sabe que se trata de um ato político. Dado momento, falta luz no Canecão. Tudo escuro. Trevas. Lydon, revoltado, puxa o coro "Raiva é uma energia! Raiva é uma energia!". A luz não volta. O show se eterniza como uma noite na qual venceram as trevas e a raiva.
1991. O Sambista Zé Keti toca na Casa da Mãe Joana, em São Cristóvão. Sentado, de azul e branco, canta: "Eu sou o samba, a voz do morro eu sou do Rio de Janeiro, quero mostrar ao mundo que tenho valor."
1993. Nirvana no Hollywood Rock. Após fazer amizade e passar um dia inteiro batendo papo com Kurt Cobain, nos separamos e o Nirvana sobe ao palco à noite. Antes de tocarem Come As You Are, Kurt repete para a multidão uma das confissões que havia feito a mim numa de nossas conversas particulares: "Vocês sabem inglês? Sabem mesmo sobre o que estou cantando? Se soubessem, não estavam pulando e cantando e sorrindo."
Em 2018, vimos David Byrne apresentar no Brasil seu novo show, considerado pelo semanário britânico New Musical Express, "o melhor show de todos os tempos". O título do show? "Utopia Americana: razões para estar otimista". Ironia fina. Mais político, impossível.
A política é como um instrumento invisível num palco. Por isso, falar do aspecto político de um show é falar sobre música.
O que acontece em um palco, desde o século VI antes de Cristo na Grécia, é político. Nos serve para refletirmos a respeito de quem somos, individual e coletivamente. Nos serve para não cedermos à tentação de descolarmo-nos da realidade.
azer uma pessoa, ou todo um povo, voltar a si.
Seja prestarmos maior atenção nas letras das canções, seja para entendermos que a delicadeza pode ser mais eficiente que a agressividade, seja para ouvirmos a voz do morro, seja para compreender que a energia da raiva não nos afasta das trevas.
Hoje, em muitos lugares pelo Brasil, haverá shows. De todos os tipos. Querendo ou não, sabendo ou não, são, serão, todos shows políticos.

O artista é aquele que não desiste de nós.
É o que diz: "Seja humano!"
Às vezes obtém sucesso com isso. Às vezes não.
Artistas nos ensinam ainda isso. A nos relacionarmos de melhor forma com o sucesso e o fracasso.
Nos ensinam que, em geral, não nos é dado saber se teremos sucesso ou não.
Nos ensinam que não existe desonra no fracasso.
Que existe só uma grande de vergonha.
A de desistir de shows.
A de desistir da arte.
A de desistir da humanidade.
Desistir de nós mesmos.

Por Dodô Azevedo - G1

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