“A gente elegeu um presidente comediante de stand-up do mal”, diz cineasta que acompanhou impeachment

Patrocínio

“A gente elegeu um presidente comediante de stand-up do mal”, diz cineasta que acompanhou impeachment

Cena de Jair Bolsonaro no filme "Excelentíssimos"
No primeiro semestre de 2016, o cineasta Douglas Duarte estava no olho do furacão. Ele acompanhava as movimentações do congresso nacional enquanto os parlamentares decidiam se votariam ou não pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff. O material é o recheio de ‘Excelentíssimos’, documentário que chega nesta quinta aos cinemas, quase dois anos e meio depois, no apagar das luzes do governo Michel Temer e faltando poucos dias para a posse de Jair Bolsonaro.
O futuro mandatário do país é um dos personagens do filme, aparecendo ainda como figura periférica, assim como Onyx Lorenzoni, hoje homem forte do bolsonarismo e ministro extraordinário da transição.
“É muito engraçado ver que o brasileiro acabou escolhendo como governantes gente que eu, como diretor, escolhi porque eram histriônicos e eram interessantes como atores”, conta o cineasta, em entrevista exclusiva ao Yahoo!. “A gente elegeu um bando de youtubers. E a gente elegeu um presidente que é um comediante stand-up do mal”, aponta, ao falar sobre sua experiência ao ter acompanhado de perto as movimentações destas figuras.
Duarte lembra especificamente de uma das cenas que conseguiu gravar e incluir no documentário: “Ele [Jair Bolsonaro] entra no auditório e tem 400 pessoas gritando ‘Mito! Mito! Mito!’. Eu nunca tinha visto aquilo. Vi aquelas pessoas numa viagem ali bem delas. Aí vi que o negócio tinha um tamanho maior do que imaginava que era. Mas, naquele ano, se você me falasse que 60 milhões de pessoas iriam embarcar nessa viagem, eu nunca acharia possível”.
“Eu sinto que esses caras se elegeram por uma teatralidade muito específica que funciona para a câmera. Eles são muito midiáticos e não funcionam no dia a dia da política”, acredita. Por isso, o resultado da última eleição presidencial o surpreendeu.
Ainda assim, ‘Excelentíssimos’ traça uma linha reta de causa e consequência para mostrar como uma coisa tem a ver com a outra. O longa mostra como o impeachment nasceu nos dias seguintes à eleição de 2014, quando líderes do PSDB se incomodaram com a derrota no pleito e começaram a articular a queda de Dilma. Enquanto tucanos e petistas faziam seu cabo de guerra, o campo ficou aberto para políticos como Bolsonaro assumirem o protagonismo.
O objetivo inicial do projeto não era este, de acordo com o diretor. Sua intenção passava mais por conhecer os detalhes do cotidiano dos deputados em Brasília. “Eu via aqueles caras no Jornal Nacional falarem quinze segundos, jogarem uma bomba e irem embora. O filme tinha a intenção de descobrir quem são esses caras, o que eles fazem depois que a câmera corta”, explica. “Quando a gente chegou, ficou claro que realmente havia um teatro ali, e era muito interessante ver eles mudando de máscaras diante das circunstâncias”.
As negociações para frear ou avançar a pauta que cassava a presidente ofereceram um exemplo emblemático, didático e histórico de como aquilo tudo funciona. “Continua sendo um filme sobre o congresso e seus parlamentares, mas usando o impeachment como forma de expor o que aquilo ali sempre foi: o toma lá-dá cá, as desculpas legalistas para fazer o que você quer fazer, a retórica moralizante para você conseguir o seu ministério”.
Ao assistir ‘Excelentíssimos’ fica difícil argumentar que foram mesmo as tais pedaladas fiscais o real motivo para o impeachment. A questão é saber se há interessados em saber disso, fora da bolha da esquerda. “A gente fala para quem quer ouvir. Não sei se os eleitores do Bolsonaro estão em modo de escuta ainda”, reconhece Duarte, com pesar.
“Algumas pessoas vieram falar comigo surpresas, porque não conheciam metade do que aparece no filme”, relata. “Acho que neste aspecto o filme pode ser um bom começo de conversa para quem votou no nosso idiota presidencial”.
Perguntado se um filme como este seria possível num governo Bolsonaro, que antes mesmo de seu mandato começar já atacou de diversas formas quem apresenta pensamento contrário, o cineasta prefere manter a fé. “A gente tá sempre achando as brechas. Todo lugar tem brecha”, diz. “Minha função é encher o saco”.


Postar um comentário