A paz que Yuka nunca quis

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A paz que Yuka nunca quis

Músico era um dos principais compositores do Rock Nacional 
Em um vídeo no YouTube, Falcão, cantor do Rappa afirmou que o rompimento dele com Marcelo Yuka se deu quando Yuka disse que não acreditava em Deus.
17 anos paraplégico por conta de um assalto, idas e vindas de saúde, falta de grana (sendo ele autor das canções que mais tocam em rádio, tv e streaming do pop brasileiro). Motivos pra descrença de um Deus único, soberano, masculino, misericordioso, não faltaram.
Marcelo Yuka encontrou a paz que nunca quis.
Na canção "Minha Alma (a paz que não quero)", explicou:
– Pois paz sem voz, não é paz. É medo.
Ninguém quer morrer. Mas Yuka menos ainda. O amor de Marcelo Yuka pela vida, não só a dele, mas a vida dos outros, especialmente dos brasileiros, nesse país onde ela vale tão pouco, era radical.
Pode-se dizer que o Deus de Marcelo Yuka era a vida. A certeza de estar vivo.
Em uma sociedade estruturada em torno da ideia religiosa de que devemos sacrificar nossos dias de vida em prol de uma promessa de compensação pós morte.
A morte era a grande inimiga de Yuka. Não só a sua, um sujeito paraplégico à bala. Mas a morte de qualquer ser humano, principalmente brasileiro, principalmente desvalido, os mais vulneráveis à balas.
É dele o definitivo verso: "Também morre quem atira".
Também "Todo camburão tem um pouco de navio negreiro".
Marcelo Yuka desafiou Deus. Era para estar morto há 17 anos, no fatídico dia em que chegou sua vez de tomar tiros (uma sensação que todo brasileiro tem é de que alguma hora vai chegar a sua vez). Uma sensação que aumenta com a possibilidade de que mais armas circulem em nosso país.
Mas Yuka sobreviveu. E vieram os AVCs. Ele sobreviveu a um deles. Deu muito trabalho à morte. E, em outro verso antológico, explica o segredo de ter sido bem-sucedido enganar a velha senhora.
"Os cães farejam medo. Logo, não vão me encontrar."
Yuka não tinha medo de sua inimiga.
Yuka não tinha medo.
O que o fez ele mesmo um deus.
Pescando ilusões, motivos que lhe tragam fé. Como na sua sublime canção "O Pescador de Ilusões".
O brasileiro destemido à espera de sua hora, seja à bala, pela sua inexorabilidade, pescando ilusões, e motivos que lhe tragam fé.
Registrando em vida, antes que a paz que não se quer lhe encontre, que valeu a pena.
Valeu a pena.

Por Dodô Azevedo do Portal G1

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