Se os Beatles não existissem, teríamos que inventá-los
  • Se os Beatles não existissem, teríamos que inventá-los

    Se os Beatles não existissem, seria preciso inventá-los. A história da banda, cujo rompimento oficial completa 50 anos esse mês, é marcada por uma trajetória que ultrapassa em muito o legado musical de um simples conjunto de rock. Sua influência cultural ainda é tão presente que, mesmo meio século depois do fim, continua viva por meio de livros, documentários, notícias e, claro, pelo amor incondicional de milhões de fãs em todo o mundo.

    A onipresença dos Beatles pode ser medida no interesse que qualquer notícia sobre eles desperta. O surgimento de uma foto inédita banal do início da carreira, como aconteceu essa semana, vira pauta na imprensa inglesa – grandes jornais como o The Guardian e o Independent mantêm seções fixas sobre o grupo em seus sites.
    Um áudio descoberto recentemente por Mark Lewisohn, historiador especializado em Beatles – sim, isso existe –, provocou uma releitura sobre o fim da banda. Gravado em uma reunião de John, Paul e George – Ringo estava no hospital –, o áudio revela que eles planejavam gravar mais um álbum. Os diálogos mostram, inclusive, que o repertório seria dividido entre os três músicos presentes, quatro canções de cada, mais duas para Ringo – “se ele quiser”. Apesar de George ter composto clássicos como “Taxman” e “While My Guitar Gently Weeps”, Paul explica que ele poderia começar a contribuir igualmente porque “suas músicas antes do ‘Abbey Road’ não eram tão boas”. Detalhe: no álbum, George colaborou “apenas” com “Here Comes the Sun” e “Something”, duas obras-primas. George humildemente se defende:
    “É uma questão de gosto, acho que as pessoas gostam das minhas canções”. Infelizmente, o álbum nunca sairia do papel – ou do áudio, no caso. Essa e outras revelações de Lewisohn farão parte do último livro da trilogia definitiva sobre os Beatles, “All These Years”. A primeira parte, “Tune In”, publicada em 2016; “Turn On”, sobre o período 1964-66, e “Drop Out” (1967-69), ainda não têm data de lançamento.

    O interesse mundial é quase infinito: na Inglaterra, há sites que publicam notícias sobre os Beatles todos os dias do ano

    Quem acessa o site Beatlesnews.com se impressiona com a quantidade de notícias fresquinhas. Há novidades todos os dias do ano – e isso não é modo de dizer. Quem visitou o site em 13 de abril, apenas como exemplo, soube que: hospitais de Nova York estão usando canções dos Beatles para alegrar pacientes internados com coronavírus; a banda de rock Blossoms tocou “Paperback Writer” em uma live; o manuscrito de “Hey Jude” alcançou US$ 910 mil (quase R$ 5 milhões) em um leilão online onde foram oferecidos outros 250 itens; a Fundação Material World, criada pela família de George Harrison, doou US$ 500 mil para o combate à pandemia.
    Nenhuma outra obra, no entanto, atiça mais os fãs do que o documentário “Get Back”, de Peter Jackson, diretor de “O Senhor dos Anéis”. Composto com material inédito das gravações de “Let it Be”, será lançado pela Disney em 4 de setembro. As sessões em estúdio já haviam rendido um filme do diretor Michael Lindsay-Hogg em 1970, mas a nova versão de Jackson, que pesquisou e reeditou as 55 horas de material bruto, promete uma abordagem bem diferente. “Let it Be” foi o último álbum a ser lançado – “Abbey Road” foi gravado depois, mas saiu antes porque o documentário homônimo ainda não ficara pronto.
    A banda já estava um processo de desintegração e Paul havia assumido o controle. Segundo Lennon, em uma entrevista na época, isso tornou o filme “preparado por Paul e para Paul”. “Foi um dos motivos pelos quais os Beatles acabaram.” A nova versão de Jackson privilegia a parte criativa e musical das gravações, além da amizade e os momentos de descontração entre os músicos. Traz ainda as imagens restauradas dos 42 minutos do último show no teto da gravadora Apple, em 30 de janeiro de 1969.
    Por que, então, os Beatles ainda nos fascinam? A resposta tem motivos musicais e culturais óbvios, mas permite também uma leitura psicológica mais subjetiva: os Beatles são uma metáfora da vida. John, Paul, George e Ringo tinham uma química inexplicável que acontece uma vez a cada eternidade. Além do talento e do carisma, cada um revelou-se profeticamente como arquétipo: John era a rebeldia; Paul, o amor; George, a espiritualidade; Ringo, a graça. Juntos, eram os Beatles. Nós os amamos porque somos uma mistura dessas quatro personas, com intensidades e porcentagens diferentes. Podemos ser ingênuos como Paul, rebeldes como John ou, às vezes, descompromissados e leves como Ringo. A trajetória dos Beatles se tornou um mito porque se confunde com o nosso próprio amadurecimento: acompanhamos a transformação dos garotos em homens, a descoberta do amor e os problemas do casamento, o desencanto da juventude, a substituição do coletivo pelo individual. Ao olhar para os quatro juntos, descobrimos que eles não são apenas os Beatles: são todos nós.

    Por que os Beatles acabaram?

    Os Beatles começaram muito jovens: em 1962, Paul tinha 20 e John, 22. A influência do empresário Brian Epstein era grande e, com sua morte, em 1967, houve uma disputa entre Paul e John pela escolha do novo representante. Paul queria Lee Eastman, pai de sua namorada Linda; John queria Allen Klein, ex-Rolling Stones. Na mesma época, John começou a levar Yoko Ono ao estúdio, antes frequentado só pelos músicos. A junção do amadurecimento, a disputa de egos, muito dinheiro e os novos relacionamentos levou à separação.

    “Só compreendi a dimensão deles mais tarde”, Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial
    “Quando eu era criança, ouvia Led Zeppelin e Deep Purple e só conhecia a primeira fase da banda, achava meio careta. Só mais tarde fui entender a inteligência e riqueza harmônica da banda. Os Beatles tiveram grande impacto musical, mas também influenciaram a sociedade. Paul é um grande músico, John ainda é um símbolo do pacifismo, George trouxe a inspiração mística. Só quando aprendi a tocar “Blackbird” no violão é que compreendi a dimensão dos Beatles”.

    “Ouvir Beatles é a melhor escola para um compositor”, Lobão, cantor e compositor
    “Os Beatles potencializaram a música pop e mudaram a cara do rock. Começaram com um estilo Elvis Presley, mas foram se sofisticando até chegar no “Revolver” e “Sgt. Pepper’s”. E daí incorporaram mil influências: John Cage, música contemporânea, erudita,renascentista inglesa. Assim como o século 18 teve Mozart, na Áustria, e o século 19 teve Beethoven, na Alemanha, os Beatles serão a grande marca da música do século 20. Do Black Sabbath ao Radiohead, do Yes ao Metallica, tudo passou e passa pelos Beatles. Se alguém me pergunta “como fazer música pop?”, mando aprender uma música dos Beatles. É a melhor escola para um compositor até hoje. Todas as experimentações que eles fizeram foram geniais, todas são pertinentes e ainda estão vivas. Os Beatles são eternos. Bach, Villa-Lobos, Beethoven, Chopin, Mozart… para mim eles estão nessa galeria. E sempre estarão”.

    “Esses grandes pioneiros mudaram tudo”, Beto Bruno, ex-vocalista da Cachorro Grande
    “Sou quem eu sou por causa dos Beatles. São relevantes até hoje porque são a maior, a melhor e mais importante banda de todos os tempos. A qualidade de suas músicas transcendeu o rock. Eles não seriam os Beatles se não fossem os quatro, John, Paul, George e Ringo. Foram grandes pioneiros, mudaram tudo. Não só musicalmente, mas na maneira de gravar, de tocar, de se vestir, de usar cabelos compridos. Todo músico que veio depois foi influenciado por eles”.

    Arnaldo Baptista, ex-Mutantes

    “Eles Foram os primeiros a fazer música universal”
    Você viveu o auge da Beatlemania. O que os Beatles tinham de tão especial?
    Eles exerciam muita influência sobre as pessoas. Colocaram orquestras e trouxeram a Índia para a música pop, instrumentos novos como a cítara e o mellotron. Foi um impacto mundial, não apenas restrito à Inglaterra. Eles foram os primeiros a fazer uma música universal.

    Você ainda ouve Beatles ? Quais suas canções favoritas?

    Ouço sempre, gosto de “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, “Lucy in the Sky with Diamonds”, “Lovely Rita”. Nas letras, conseguiam falar de temais banais de maneira poética. Tenho composto músicas novas e a influência dos Beatles continua presente.

    Por que eles ainda são referência nos dias de hoje?

    Os Beatles continuam relevantes porque a juventude sempre busca algo a mais, algo que tenha um significado maior. Eles ainda estão esperando alguma coisa para substituir os Beatles, mas não surgiu nada.

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    IstoÉ
    Redação Felipe Machado

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