Fetiche? Vergonha? Homens e mulheres falam sobre a gordofobia na hora do sexo
  • Fetiche? Vergonha? Homens e mulheres falam sobre a gordofobia na hora do sexo

    Vanessa Joda é professora de Yoga e falou sobre gordofobia no sexo
    O próximo domingo, 6 de setembro, é marcado pelo Dia do Sexo. A data pode ser para muitos uma oportunidade para comemoração, mas deve ser também uma lembrança do quanto o tema ainda é tabu na vida de tantas pessoas.
    Longe de serem considerados com ‘corpos padrões’, alguns homens e mulheres conversaram com nossa produção e relataram como o sexo é negligenciado para o corpo gordo. Eles também revelaram como a gordofobia, muitas vezes representada em forma de fetiche, ainda está presente na intimidade.


    Quem quer namorar uma pessoa gorda?’

    Vanessa Joda, professora de Yoga, se define como ‘heterossexual em questionamento’. Para ela, que é uma mulher gorda, seu corpo nunca foi problema e sua nudez está exposta até nas redes sociais, onde incentiva outras pela aceitação das curvas. Porém, ela conta que nunca namorou e sabe que homens carregam a ‘vergonha’ por assumir uma mulher gorda como parceira.
    “Sei que sou gostosa, que gosto de sexo, mas que também nunca sou assumida em um relacionamento. A gordofobia age dessa forma. Quem quer namorar uma pessoa gorda?”, questiona Vanessa, que ainda ressalta: “Existe também o lance da pessoa gorda se esforçar absurdamente para agradar apenas para ‘compensar’. Já escutei coisas do tipo: ‘adoro transar com mulheres gordas porque elas fazem um sexo oral incrível’. Muitas se colocam nessa situação de esforço maior, eu também já fiz isso. Apesar disso, nunca namorei. Na hora de me assumir todos saem fora.”
    A professora de Yoga, superbem resolvida com a sua busca pelo prazer, destaca ainda a necessidade de discutirmos como o corpo gordo é visto apenas como fetiche por muitos.
    “O maior exemplo que temos disso é que uma das maiores buscas de vídeos pornográficos é de BBW (Big Beautiful Woman/Mulher Grande e Bonita). As pessoas gostam de transar com o gordo, mas não assumem pela gordofobia. A mulher também passa por esse tipo de submissão independente de ser gorda. Acham ainda que nós não precisamos sentir prazer, né? Precisamos nos libertar disso e a melhor forma é o diálogo. É importante falar de sexo com o parceiro”, ressalta.

    'Sentia que precisava compensar o fato de ser gorda'

    Assim como Vanessa, a assistente pessoal Hully Ribeiro, de Brasília, também já sentiu que precisava ser 'perfeita' para satisfazer na hora do sexo e compensar o formato de seu corpo. Ela revela que já passou por muitas situações ruins até descobrir o que a fazia bem e dava prazer.
    "A partir do momento que eu entendi que era gorda já tinham colocado na minha cabeça que eu teria limitações do meu prazer e que por isso teria que fazer performances melhores do que outras mulheres. Essa pressão existe na cabeça da mulher gorda. Na época me identificava como heterossexual e coloquei na minha cabeça que precisava a todo custo satisfazer o homem. Era como se eu precisasse compensar o fato de ser gorda e por isso ser 'boa de cama", conta Hully.
    Esse comportamento e insegurança a acompanhou até 2018, quando teve seu primeiro relacionamento homossexual: "Eu ainda reproduzia alguns comportamentos da minha 'vida hétero' e aquilo começou a me incomodar. É muito diferente transar com outra mulher e eu tinha a experiência do sexo com homens da pior maneira. Quando eu cortei esses comportamento repetitivos e me libertei, foi como perder a virgindade de novo."
    Hully aposta no diálogo para manter o preconceito fora da cama: "Gosto muito de entender o corpo do outro e gosto muito que entendam o que eu gosto e minhas limitações. Já vi muitos que acham o corpo gordo um ‘fetiche’ e tratam como um pedaço de carne. Isso não pode acontecer".

    Tirar a blusa não era uma opção pra mim’
    Dave Avigdor, publicitário, acredita que a gordofobia está ainda mais presente no sexo por ser um homem gordo gay. Ele relembra relacionamentos em que por insegurança e medo de críticas não conseguia tirar a camisa na hora do sexo e mantinha todas as luzes apagadas.
    Para Dave o sexo foi um tabu sim e por muitos anos.
    "As pessoas gordas desde que se entendem por gente são vistas e percebidas como erradas, como não desejadas, como 'o contrário do objetivo da maior parte da sociedade'. Imagina viver em um corpo onde você aprende e reaprende todos os dias que não é desejado?", questiona Dave.
    Ele relata: "Já estive em relacionamentos onde tirar a blusa não era nem uma opção para mim. Por muito tempo eu fiz questão das 'luzes apagadas, e de preferência de noite, e de cortinas fechadas caso a rua seja iluminada, ok?'. Por muito tempo eu me escondi, mesmo em momentos onde eu deveria me libertar. Mas hoje percebo que não era o meu corpo que me deixava inseguro, mas sim a forma como eu sabia que ele estava sendo observado".
    Dave vem se libertando de inseguranças e hoje é também militante contra a gordofobia. O publicitário sabe a dificuldade que homens gordos gays tem para se sentirem livres com o sexo: " O corpo gordo não é e nunca foi representado quando o assunto retratado é sexo ou corpo. Acredito que no meio LGBTQIA+ o preconceito seja ainda maior. O corpo gordo deve seguir um determinado padrão para serem aceitos na maioria das vezes. Enfim, uma das maiores consequências desse preconceito para mim foi - e continua sendo - a dificuldade para a construção da minha autoestima e da minha autoconfiança que por 23 anos da minha vida, hoje tenho 27, achei que não era pra mim".

    Me senti tão inseguro que não ‘levantou’ na hora do sexo’

    O comediante Victor Ahmar, conhecido por levar pelo lado do humor alguns preconceitos que sofre por ser um homem heterossexual gordo, relembra alguns episódios onde estar frente a frente com uma mulher 'padrão' o deixava bastante inseguro.
    "Já não consegui transar com uma mulher padrão. Me senti tão inseguro que nada 'levantou' no momento. Acho que todos nós que não nos encaixamos num 'padrão de beleza' já nos sentimos assim em algum momento", conta ele.
    Victor, assim como Dave, também revela a insegurança na hora de tirar a roupa para o ato sexual: "Até mesmo dentro de relacionamentos eu sempre me senti um pouco sem graça na hora de tirar a camisa. Sou bem resolvido com meu corpo, mas não adianta, essa insegurança existe. É por tudo que a gente escuta. Não desejo isso para ninguém."
    O ator afirma que a solução para a insegurança e também para qualquer tipo de preconceito no sexo é a conversa: "Costumo falar sobre sexo com a minha parceira e temos isso bem aberto. Passamos a experimentar várias coisas e essa é a graça de você aproveitar o momento. Quanto mais confiança melhor. Não adianta você ter a barriga tanquinho e não conseguir conversar com alguém direito. O segredo é só ficarmos com pessoas que nos fazem sentir bem. Já me senti inseguro, com medo, hoje não me sinto mais. Coloquei um basta nisso".

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    Lucas Pasin
    Lucas Pasin/Portal Yahoo

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