#StopAsianHate: a gente deveria estar falando sobre racismo anti-asiático (há muito tempo)

#StopAsianHate: a gente deveria estar falando sobre racismo anti-asiático (há muito tempo)

#StopAsianHate
Quando a pandemia do coronavírus começou a crescer mundo afora, e Donald Trump ainda era presidente dos Estados Unidos, um termo utilizado pelo empresário para se referir à doença acabou viralizando nas redes sociais e fora delas: "vírus chinês". O que parecia uma terminologia estranha para se referir a uma doença que, de fato, teve o primeiro relato registrado na China, na verdade demonstrou um posicionamento defendido há muito tempo por Trump: a rejeição ao país asiático.
Acompanhando o governo de Trump, ficou claro que a China era a grande inimiga atual dos Estados Unidos, e a narrativa foi coroada por um vírus que, aparentemente, surgiu e se disseminou de lá para o resto do mundo - os muitos memes que brincam com a quantidade de vezes que Trump falou a palavra "China" ao longo do mandato são um reforço disso. E por mais que pareça estranho falar sobre isso agora, os últimos dias comprovam o que uma narrativa como essa pode resultar: os crimes de ódio contra descendentes e imigrantes asiáticos aumentou - e muito - no primeiro ano de pandemia.
A conversa explodiu na última semana, quando um homem norte-americano abriu fogo contra três casas de massagem na Georgia, nos Estados Unidos, matando oito pessoas, seis das quais eram mulheres asiáticas. O criminoso alegou que a motivação por trás do tiroteio eram os seus distúrbios sexuais, mas a interpretação mais comum foi de que esse foi um crime de ódio.
Foi essa suspeita que abriu espaço para influenciadores e celebridades, descendentes de asiáticos, falarem sobre a violência, tanto verbal quanto física, que a comunidade asiática tem sofrido, principalmente desde o começo da pandemia. Um centro criado especialmente para registrar esse racismo anti-asiático, chamado Stop AAPI Hate, recebeu quase 3800 relatos de incidentes de ódio, que contabilizam violência, assédio, discriminação e intimidação infantil, desde que foi criado, em março de 2020, até fevereiro deste ano. Desse total, 503 relatos aconteceram nos primeiros meses de 2021.
Como é comum para todo tipo de violência, acredita-se que os números oficiais sejam bem maiores do que os registrados, já que, muitas vezes, as vítimas preferem não denunciar os crimes por medo de retaliação. A Stop AAPI Hate também informa que, como de costume, as mulheres são as que mais sofrem: elas fizeram 2.3 vezes mais denúncias do que os homens.
Os xingamentos e as agressões verbais são as mais comuns - 68% dos casos -, e os empreendimentos de pessoas asiáticas, como restaurantes e lojas, foram os principais alvos. Se você parar para pensar, talvez tenha visto um movimento no Brasil, em março de ano passado, de usuários das redes sociais comentando como pequenos estabelecimentos e negócios dessas pessoas estavam sofrendo com o discurso anti-China que não só o ex-presidente Trump, mas também o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, reforçava. A hashtag #EuNãoSouUmVírus, inclusive, viralizou nas redes.
A verdade é que, assim como ao falar da comunidade preta, a comunidade asiática foi historicamente vista como bode expiatório e motivo de exclusão. É a base do sistema racista e xenofóbico que vivemos hoje. A supremacia do homem branco - entenda, em que esse homem é visto e se vê como superior aos demais e, portanto, detentor de todo poder de decisão - tem feito vítimas demais para que o resto do mundo continue só assistindo. Não é sem motivo que os Estados Unidos viu um aumento no número de manifestações pedindo respeito e segurança para essas comunidades, tratadas como minorias.

É óbvio que a administração Trump e a visão norte-americana sobre a China gerou um estigma comprado com extremistas no país, o que aumentou o número de casos de violência de forma tão surpreendente. No entanto, esse ódio (aparentemente gratuito), não é algo novo. Basta lembrar que, durante a Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano aprisionou todas as pessoas descendentes ou de origem japonesa, incluindo crianças, por receio de que elas mantivessem a lealdade ao governo japonês na guerra.
É interessante também observar como a mídia norte-americana, tão difundida mundo afora, cria a narrativa do inimigo: em filmes, séries de televisão e até livros, sempre há um inimigo que, de preferência, vem de um lado do mundo que não é o "ocidental desenvolvido", como se gosta de pensar. São árabes, indianos, vietnamitas, chineses, japoneses… ou seja. o Oriente, especialmente o Leste Asiático, comumente é pintado como vilão, tal qual o Oriente Médio.
A importância de falar isso é porque, vale lembrar, o Brasil conta com a maior comunidade japonesa fora do Japão. Os números são desatualizados, mas segundo uma pesquisa feita pelo Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, em 1988 a população de japoneses e seus descendentes era de mais de um milhão e 200 mil. Dá para imaginar o quanto esse número cresceu, mesmo que de forma vegetativa, de lá para cá.

Sexualização de homens e mulheres asiáticos

E, como o Brasil tem um histórico (ruim) de buscar copiar tudo o que os Estados Unidos fazem, dá para perceber a importância de levantar a bandeira contra o racismo anti-asiático por aqui. Aliás, entra também nesse mix o boom do halluy, a onda sul-coreana, que chegou por aqui com força total, e cuja interpretação pelo público brasileiro colabora para o racismo generalizado - ou você acha que fetichizar um idol coreano não entra no âmbito do racismo? (Resposta: entra, sim.) A sexualização de homens e mulheres asiáticos é outro ponto histórico, que cai na mesma alçada de sexualização de homens e mulheres negros. Pode parecer um elogio à primeira vista, mas é racismo.
Enfim, o assunto é longo, é doloroso e é complexo, mas o mais importante é entender que esse movimento da comunidade asiática norte-americana é mais uma busca pelo mínimo: respeito, segurança e acolhimento. O que aconteceu em Atlanta foi o estopim para (mais uma) conversa que há muito tempo deveria ter acontecido, e resta às pessoas brancas ouvir e aprender. Ser voz ativa contra o racismo é nosso papel também. Não é o momento para passividades, caso ainda não tenha ficado claro.
Um último lembrete: no Brasil, racismo é um crime previsto por lei que não só pode como deve ser denunciado. Você pode abrir uma denúncia pela internet, em qualquer delegacia ou diretamente nas delegacias especializadas, como as Delegacias de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (com unidades em São Paulo e no Rio de Janeiro). É possível também fazer uma denúncia usando o Disque Direitos Humanos, discando 100 de qualquer telefone - a ligação é gratuita.

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Marcela De Mingo

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