De vilã a anti-heroína: filme "Cruella" mistura moda, punk rock e cachorrada

De vilã a anti-heroína: filme "Cruella" mistura moda, punk rock e cachorrada

Originalmente, Cruella De Vil é uma das piores vilãs da história da Disney. É ela quem almejava matar 99 filhotes de dálmatas só para produzir um casaco de pele — uma das motivações vilanescas mais fúteis e macabras já vistas. Extravagante, fashion, narcisista, egoísta e sociopata, mas repaginada: a personagem da franquia 101 Dálmatas agora ganha seu próprio filme live-action. Cruella está sendo lançado simultaneamente nos cinemas e no Disney+, via Premier Access, nesta quinta-feira (27).

Tudo começou com o livro infantil 101 Dálmatas, da escritora inglesa Doddie Smith, lançado em 1956. Pouco antes, a história havia sido publicada originalmente de forma serializada na revista feminina Woman's Day com o título The Great Dog Robbery ("O Grande Roubo de Cachorros"). 

Em 1961, a obra de Doddie seria adaptada em animação pela Disney — uma continuação foi lançada em 2003, com o subtítulo de A Aventura de Patch em Londres. Foi em 1996 que saiu a live-action que trazia Glenn Close como Cruella e Hugh Laurie (eterno Dr. House) como capanga, com roteiro de John Hughes (diretor de Curtindo a Vida Adoidado e roteirista de Esqueceram de Mim). Essa produção ganhou uma sequência discreta em 2000, 102 Dálmatas. A cachorrada teve, ainda, duas séries animadas: 101 Dálmatas (1997) e Rua Dálmatas 101 (2018).

Por mais que os cãezinhos sejam carismáticos e fofinhos, a verdade é que a personagem mais memorável da franquia 101 Dálmatas é a vilã. Cruella é lançado na esteira de uma tendência de reciclagens na indústria de Hollywood, que ganhou força nos últimos anos: resgatar histórias ou personagens conhecidos em novos contextos. Não precisa ser o mocinho ou mocinha para receber uma nova roupagem, os vilões também têm seu espaço — Malévola e Coringa são exemplos bem-sucedidos.

O diabo não veste dálmatas

Ambientado na Londres de meados dos anos 1970, Cruella tem a roupagem do punk rock. Com direção de Craig Gillespie (Eu, Tonya), o longa cria uma nova história de origem para a personagem, antes de ela ser uma magnata fashion, quando ainda era conhecida como Estella, seu nome de batismo. 

Primeiramente, somos introduzidos à protagonista em sua infância desvairada, que culmina com Estella (Tipper Seifert-Cleveland) sendo expulsa da escola e, em seguida, tendo que lidar com a morte de sua mãe. Ela foge para Londres, onde cresce ao lado de Jasper (Joel Fry) e Horace (Paul Walter Hauser) — os mesmos capangas de Cruella nas histórias da franquia. Já na vida adulta, Estella é estonteantemente interpretada por Emma Stone (La La Land), que consegue empregar a atitude gótica e refinada que a personagem pede.

Ao lado de seu par de amigos, ela constrói uma vida aplicando golpes e aprontando vigarices. Contudo, Estella é estilista desde criança. Criativa, ousada e esperta, ela larga a vida de ladra para se dedicar ao seu sonho. Até que chama a atenção da Baronesa Von Hellman, vivida por Emma Thompson (Retorno a Howard's End). Trata-se de uma poderosa estilista, que, ao mesmo tempo, é intimidante e perversa. Praticamente a Cruella dos filmes anteriores.

A partir do momento em que Estella passa a trabalhar para a baronesa, Cruella se torna momentaneamente o sucessor espiritual de O Diabo Veste Prada (2004): há uma relação cuja dinâmica é similar à das personagens Andrea Sachs e Miranda Priestly. Ou seja, uma chefe abusiva e uma jovem aspirante em busca de reconhecimento. 

Porém, uma revelação faz com que Estella abrace seu lado perverso que tanto reprimia. Ela se torna Cruella. Sob essa persona, cria peças transgressoras, que flertam com a estética punk rock e gótica — destaque para um desfile ao som de I Wanna Be Your Dog, do The Stooges. O caos promovido por Cruella faz sucesso, para a ira da Baronesa. Curiosamente, a chefona não saca que sua subordinada Estella é a sua rival de peruca, algo que até soa jocoso. De qualquer maneira, Cruella se torna uma trama de vingança, combinando espionagem e planos mirabolantes à la Golpe de Mestre (1973) ou Onze Homens e Um Segredo (2001) — só que envolvendo cãezinhos, sendo os dálmatas meros figurantes. 

Aliás, vale prestar atenção nos créditos ao final do filme, que dão a entender que pode haver mais cachorradas e desfiles no futuro.

Anti-heroína

Combinando comédia, drama e aventura, Cruella é um filme visualmente rico. Até remete um pouco às produções de Tim Burton. Entre as cores, o preto, o branco e o vermelho predominam ao longo de 134 minutos. Os figurinos — seja para ambientar a Londres setentista ou nas criações de Estella — são soberbos. As cenas em que Cruella revela suas peças são especialmente criativas. É um longa que se candidata a concorrer no Oscar 2022 nas categorias de cabelo e maquiagem, design de produção (direção de arte) e figurino.

Cruella também investiu alto para ter uma trilha sonora com rock clássico, que transita entre os anos 1960 e 70: The Rolling Stones, The Doors, Tina Turner, Nancy Sinatra, Genesis, The Zombies, The Animals, Electric Light Orchestra, entre outros.

Nem tudo é exitoso: as cenas com os cães em computação gráfica são embaraçosas, destoam da estética geral do filme. O desenvolvimento da perversidade de Cruella é um tanto forçado e indulgente. Sem falar de algumas sequências que vão exigir uma boa vontade e suspensão de realidade do espectador. 

Cruella  é um live-action com uma carga mais sombria. Salta do melodrama ao absurdo em instantes. Traz cenas que escapam do público infantil, quase anti-Disney. O que é positivo: pode ser um frescor para as reciclagens do estúdio. O filme foca em uma anti-heroína como protagonista, que, em tese, se transformaria em vilã no futuro. Em tese, pois se trata de uma reimaginação, uma nova identidade para a extravagante personagem. E o resultado é interessante e promissor. No fim, podemos ter simpatia pela De Vil.

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William Mansque

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