O vocalista dos Sex Pistols que deixou o punk para cuidar da esposa com Alzheimer

O vocalista dos Sex Pistols que deixou o punk para cuidar da esposa com Alzheimer

Johnny Rotten com sua companheira, Nora Forster em 1985
A combinação de três palavras ―banda, punk e rock― costuma remeter a sujeitos duros, alternativos, licenciosos, excessivos. Johnny Rotten cumpriu as expectativas na década de setenta, quando era líder dos Sex Pistols, a cara furiosa do punk rock que cantava à anarquia e destilava tanta raiva quanto o fervor acumulado entre seus admiradores, que eram fiéis e numerosos. Com suas letras antissistema, o grupo foi vetado pela BBC e rejeitado por duas gravadoras, mas iniciou uma tendência musical que mudou o rock e o pop. Os músicos se separaram em 1978, quando Rotten formou outra banda, a Public Image Ltd, e emplacou novos sucessos. Trinta anos depois dos Sex Pistols, o quarteto foi incluído no salão da fama do rock and roll e reconhecido pelo papel que desempenhou na música. Hoje Rotten, cujo verdadeiro nome é John Lydon, é um homem de 65 anos que mora na Califórnia, longe do atropelo de sua terra natal, o Reino Unido, onde outros músicos mais jovens e menos ocupados clamam pelas mesmas coisas que ele entoou em suas canções.
A anarquia já é passado para o vocalista dos Sex Pistols. E o principal motivo é que ele agora se dedica a um objetivo que pouco tem a ver com a música ou com deixar as coisas à própria sorte: cuidar de sua esposa, doente de Alzheimer. Johnny Rotten e Nora Forster, que atualmente tem 78 anos, estão juntos há 45. Algumas matérias dizem que se casaram em 1979, mas eles nunca confirmaram. Nora hoje precisa de ordem e calma, e o velho roqueiro está lá para dar isso a ela, inclusive à custa de si mesmo. Resta-lhe rebeldia para reclamar do novo biopic que Danny Boyle prepara sobre os Sex Pistols sem tê-lo consultado. “É a merda mais desrespeitosa que tive que suportar. Lamento que pensem que podem fazer isso. Não vai acontecer. Não sem uma grande briga. Sou Johnny Rotten. E, quando você se mete comigo, as coisas ficam muito feias”, disse ele numa recente entrevista ao The Sunday Times.
Mas sua máxima concentração está centrada em Nora, um trabalho em tempo integral causado pelo Alzheimer, doença que ele define como “um processo perverso, debilitante e lento, mas que vivemos juntos”.
O cantor resumiu seu consolo nas palavras com as quais se referiu à mulher durante a emotiva entrevista: “Ela não se esquece de mim. Esquece todo o resto, menos eu”. Muito realista, ele disse que sabe que a doença é incurável e que sua esposa não melhorará nunca. Mas explicou que “é preciso enfrentar isso e deixar de lado a autopiedade. É algo que posso dizer com orgulho que meus pais me incutiram desde cedo: ‘Não tenha pena de si mesmo, siga em frente’”. E quase lança um desafio aos seguidores: “Meu Deus, se vocês sabem que o maldito Johnny Rotten pode fazer isso, qual é a sua desculpa?”.
O casal vive nos Estados Unidos desde os anos oitenta, e nessa decisão pesou o bom clima da Califórnia ―algo que não havia em Londres. “Os céus azuis me animam”, disse o artista em seu encontro com o The Sunday Times. Ele e a mulher residem há três décadas numa casa de 1910 que originalmente pertenceu à atriz Mãe West e que consideram como “um castelo encantado”. Dinheiro não lhes falta. Rotten possui outras casas em Malibu e em Londres, mas não encontra ajuda para o problema da esposa ―como sempre se refere a ela, não importa se tenham se casado. “Essa doença é uma grande incógnita”, explica o ex-líder dos Sex Pistols. “Nora sempre se alimentou de forma saudável. Isso deve ser genético, mas estou aberto a qualquer ideia.” O artista passa então a descrever a vida de sua esposa, que é a também a dele: “Viajar de avião a assusta, e ela se desorienta nos hotéis. Precisa saber que as coisas são suas: sua cadeira, seu ursinho de pelúcia... Gostamos de assistir a comédias e às notícias juntos. Sei que ela vai piorar e que isso se transformará em algo terrível, mas estamos enfrentando com dignidade. Seria bastante fácil fugir disso e dizer: ‘Não é minha responsabilidade’. Mas sou John e, quando eu me comprometo, é para sempre e mantenho o compromisso. Estou muito orgulhoso de fazer o melhor que posso para ela. Estamos juntos há 45 anos. Não vamos mudar nada. Somos um casal, nos amamos, nos adoramos.”

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Fonte Jornal El País

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