‘Tem muita gente no armário da isenção’. Luis Lobianco cobra mais ativismo social dos artistas

‘Tem muita gente no armário da isenção’. Luis Lobianco cobra mais ativismo social dos artistas

Luis Lobianco

Luís Lobianco está falando muito sério. Na véspera do Dia do Orgulho LGBTQA+, o ator, que costuma fazer todo mundo rir, chama a atenção de que a luta contra o preconceito não pode parar. Seja no front da comédia, como é o caso do filme “Carlinhos e Carlão”, seja no palco, com o estáculo “Buraco show”, seja na arena das redes sociais, onde é preciso matar vários leões, ou melhor, hienas, por dia. Neste Papo Reto, Lobianco fala cheio de orgulho. E disposição para o bom combate.

Na véspera do Dia do Orgulho LBTQIA+, como você avalia a violência contra homossexuais que só faz crescer no Brasil?

A nossa resistência, desde o momento em que a gente se reconhece como uma pessoa LGBTQIA+, se vê dentro da sociedade, no lugar que ocupa, o recorte social. Depois, no ambiente de trabalho. A luta é sempre presente. Você tem sempre que alguma forma de se impor. Há sempre mais dificuldade pra nossa comunidade, assim como há para outras comunidades, outros grupos identitários. Nosso reconhecimento de se entender como comunidade é uma coisa relativamente decente. A gente está no Mês do Orgulho. Daqui a pouco vai comemorar o marco que foi Stonewall (quando, cansados de sofrer violência e humilhações, gays enfrentaram a polícia e despertaram um sentimento de luta na comunidade), em Nova York, que é um marco, é quando a gente se percebe comunidade. Esse mês, essa data, marcam o início de uma luta coletiva, onde precisamos olhar pra frente. E desde então muita coisa mudou. Desde a gente não se reconhecer como comunidade até esse momento, e aí, de 60 anos pra cá, a gente conseguiu muita coisa. Avançamos muito. Desde da homossexualidade não estar mais enquadrada como transtorno psiquiátrico, psicológico, depois o reconhecimento da união estável, depois da união civil. Depois a homofobia ser equiparada a crime de racismo. Mas isso não significa que a gente chegou a algum lugar e pode descansar. Tem muita coisa pela frente. E principalmente quando a gente tem conquistas, a reação a essas conquistas fica mais violenta. Hoje a violência é muito mais explícita, declarada. E a gente precisa lidar com ela, cobrar proteção, direitos. Cada vez mais. Senão os conservadores, os homofóbicos, os fascistas passam por cima da gente. É sempre importante falar que o Brasil é um dos primeiros no ranking de países que mais matam LGBT no mundo. Se você pegar o recorte T, dos transgêneros, o Brasil é o primeiro. Isso é muito grave. Não dá pra descansar. Não dá achar que pelo fato de poder casar, de não ser rotulado como doentes mentais, poder ir à delegacia fazer uma denúncia... Mesmo assim não dá pra achar que isso não existe. A reação é muito forte.

Você mostra abertamente sua vida e sua relação. Sofre muitos ataques de ódio?

Nunca fez sentido pra mim, eu trabalho com muita gente, com muitos atores, inclusive heterossexuais, que são casados, nunca fez muito sentido pra mim o fato de eles poderem estar presentes nas campanhas, nas revistas, nas redes sociais, como um casal que inspira e que merece espaço, e eu não estar. Eu tenho a concessão, o privilégio de ter o meu espaço na mídia, com meu espaço, minha carreira, e eu preciso usar esse espaço de forma que que inspire as pessoas e que mude temperamentos, que mude paradigmas. O que eu faço não é me expor. Se expor é mostrar o que você faz no quarto. O que eu faço é naturalizar a minha relação, que faz parte da minha vida, a pessoa que divide os meus sonhos comigo. Muito dos processos que eu faço são encorajados, incentivados, pela pessoa que divide a vida dela comigo. É muito justo que essa pessoa esteja presente. Numa estreia no cinema, numa campanha publicitária. Num programa de TV como o “Tamanho família”, quando eu fui homenageado, de tarde, no horário da família brasileira. Naturalizar essa presença e mostrar que nós, eu e o Lúcio, existimos, existimos em muitos lugares, muito mais do que as pessoas pensam. Porque uma hora a gente vai parar de ver um beijo nosso, meu e do Lúcio, e parar de chamar de beijo gay. Vai chamar só de beijo. Já sofri muitos ataques de ódio nas redes sociais. Já sofri ameaça de morte por mensagem privada. Acontece. Se eu postar agora uma foto abraçado com Lúcio, nem precisa ser beijando, só abraço, mas vai haver tanto mensagens de carinho quando de ódio. Faz parte. E eu tenho muita noção de que sendo um homem de pele clara, não sendo da periferia, sendo famoso, eu estou bastante protegido. Porque se é alguém nessas condições, nessa situação, a pessoa está completamente vulnerável em qualquer lugar. No ônibus, na padaria, até dentro de casa.

Em "Carlinhos e Carlão", você escolheu o humor para botar o dedo na ferida do preconceito e inclusive da postura violenta de quem não se assume. Por que o caminho do humor?

Eu acho que o humor é uma ferramenta maravilhosa pra chegar no coração das pessoas. É um potencializador de empatia. Quando a gente ri com um artista, uma cena, você tá se abrindo pra aquilo. E nesse aspecto é quase terapêutico. Porque o filme é isso. Ele faz você rir e, quando tá bem relaxado, gostando da história, a gente começa a colocar as situações, que a gente precisa debater, a gente precisa mostrar. É uma via de entendimento pela emoção. Quanto mais a gente ri numa história, e aí o desfecho muda, mais a gente chora no final, porque estamos muito envolvidos com aquilo. E esse é o humor que eu acredito. Eu não gosto de humor de depreciação, de apontar o corpo do outro. O humor que eu gosto é o que abre o coração que abre o coração das pessoas. Que faz rir, mas que faz uma ficha poderosa cair. Uma ficha que não tem volta mais. Eu recebi muitas mensagens de muitas pessoas, recebo até hoje. "Ah, vi o filme com minha família, muitas coisas eu não conseguia explicar pros meus pais e aí eles entenderam porque riram e se emocionaram com o filme". Eu acredito no poder dos debates acadêmicos, mas a minha praia de promover entendimento é contando histórias.

Mas a questão do armário...

Outra coisa importante a falar é que essa coisa do armário, é importante que a gente entenda o tempo de cada um. Muitas vezes a pessoa está no armário porque é massacrada, oprimida, tem medo, a vida inteira ela ouviu que o que ela está fazendo, o que ela é, errado. A gente precisa compreender um pouco muita gente que tá no armário e que precisa do seu tempo de entendimento. Porque senão fica parecendo que toda pessoa que está no armário é homofóbica. E aí a culpa da homofobia acaba no colo do LGBT de novo. Assim como não foi o negro que inventou o racismo, racismo é coisa de branco, a LGBTfobia não foi inventada por nós. Tenho muita vontade fazer a continuação desses filme pra falar sobre isso.

Tem muita gente no armário no Brasil?

Nossa, tem muita gente no armário. E tem muito armário diferente. A gente está num momento de perceber e identificar quem são os isentos coniventes com a política a que está submetido no momento. Não dá mais pra pessoas públicas, artistas, que têm influência, só se beneficiarem das redes sociais. De publicidade, anúncio. E não se posicionarem contra o massacre que a gente está vivendo. Esse é o grande momento pra gente falar desse armário da isenção. Acho que todo artista que se beneficia das maravilhas que as redes sociais podem oferecer, tem que se posicionar também.

Como fez a Samantha Schmütz...

Conheço Samantha há muitos anos, somos amigos há muitos anos. E vi Samantha crescendo. Temos uma trajetória paralela. E fui vendo a Samantha se tornar uma mulher muito consciente do papel dela. Depois do 2020, da pandemia, e principalmente depois da morte do nosso amigo Paulo Gustavo, muitas coisas mudaram dentro da gente. Nosso senso de urgência pra cobrar segurança, dignidade, está muito mais aguçado. A gente quer mudança agora! E eu estou com ela e não abro. O público não quer mais somente artista que só posta paisagem e mensagem motivacional. Ele quer que o artista seja um agente transformador pra vencer esse caminho de desumanidade que a gente tomou. Durante muito tempo esses artistas isentos ficaram protegidos, agora é o contrário. O público tá de olho!

A perda do Paulo foi uma porrada, né?

Cara, tá sendo. Ainda é inacreditável. Todo dia, em algum momento do dia, eu lembro disso e parece que acabou de acontecer. Pelo tamanho do cara. Pelo artista imenso, a referência gigantesca que ele se tornou para o Brasil inteiro. E isso não é uma coisa subjetiva. É uma coisa se mede em números. Quanto gente ele botou no cinema, lotou teatros, tinha que fazer espetáculo em estádio de futebol. Isso é um fenômeno que eu não sei se a gente vai ver de novo. Paulo era o grande representante dessa nossa geração de artistas. Vai demorar muito tempo pra gente entender. Não voltamos a gravar o “Vai que cola”. Entender como vai ser sem ele. Depois de tanta tragédia, tanta morte. Ainda estamos de luto.

Fale um pouco sobre o “Buraco show”, esse espaço de resistência.

O Buraco Show é minha família artística no mundo. A gente se encontrou na Lapa buscando fazer um tipo de teatro que a gente não conseguia fazer em lugar nenhum. Criamos um primeiro espetáculo, em 2012, que bombou e imediatamente trouxe um público que só cresceu. Ficamos fixos nesse casarão chamado Buraco da Lacraia por sete anos, criando espetáculos com muito humor. A pessoas riam muito, se emocionavam. Era muito político, democrático. E uma experiência de liberdade na pele, não na teoria. As pessoas sentiam na pele a liberdade, a diversidade. O Buraco ficou muito conhecido no Brasil inteiro, no mundo. Eu virei o Lobianco do Buraco. Em 2019, a gente saiu dessa casa. Mas a gente foi pra outros palcos. Veio pra Botafogo e fizemos apresentações belíssimas no Teatro Rival. E ficamos com esse sabor. Continuamos online, fazendo shows semanalmente. A gente não vê a hora de, todo mundo vacinado, poder voltar.

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Jornal Extra

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