Como a franquia Pânico revigorou (e transformou) o gênero slasher | Lully FM - La Profundidade 88.1

Como a franquia Pânico revigorou (e transformou) o gênero slasher

Franquia Pânico

Em 8 de Agosto de 1969, um grupo de seguidores de um guru chamado Charles Manson invadiu a mansão onde morava, ocasionalmente, o diretor Roman Polanski e sua esposa grávida de nove meses Sharon Tate. Roman não estava lá, mas os criminosos mataram com dezenas de facadas Sharon e mais quatro pessoas. Por meses, a polícia e a opinião pública especularam sobre os crimes e deram a ele uma dezena de justificativas diferentes. Somente em dezembro daquele mesmo ano é que a verdade veio à tona; e foi essa verdade que fez com que o mundo perdesse o sono. 

Era o início da década de 70 e o “sonho hippie” de paz e amor tinha acabado com seguidores de um culto assassinando e mutilando inocentes escolhidos por questões puramente casuais. O “motivo” de Manson para mandar matar era absurdo. O motivo pelo qual os assassinos mataram, era mais ainda: nenhum. Vestidos de preto, eles invadiam casas armados com facas, rendiam, matavam e usavam o sangue das vítimas para deixar sinais macabros. Foi assim, com essa ferida brutal na própria história, que os EUA entraram na nova década.

É absolutamente possível dizer que o Helter Skelter (como ficou conhecido o crime) acabou influenciando diretamente o surgimento dos slashers, um subgênero do cinema de horror, que nasceu para ilustrar a morte por essa perspectiva petrificante: estar no lugar errado, na hora errada. Sim, porque por natureza, quem está mesmo sendo perseguido (a final girl) sempre escapa; e caem mortos pelo chão todos os que estão em volta. A ideia de um lunático usando uma faca, que num figurino macabro invade casas aleatoriamente, se tornou o pesadelo de todo americano naqueles anos pós-Manson. E é claro que o cinema iria refletir isso de alguma maneira.

A maioria dos especialistas aponta O Massacre da Serra Elétrica, de 1974, como aquele que iniciou o DNA dos slashers. O vilão Leatherface já usava uma máscara e perseguia jovens com uma arma que não era de fogo. Mas, Halloween, de 1978, foi provavelmente o filme que impactou o subgênero de uma maneira definitiva. As regras sobre as quais a franquia Pânico fala tanto foram estabelecidas com mais clareza nele. Ou seja, o vilão (ainda mascarado) que persegue uma jovem e vai matando todos que encontra pelo caminho, sem nunca correr – e sem nunca morrer também.

A chegada de Sexta-Feira 13, em 1980, aperfeiçoou essas características. Os jovens que transavam ou se drogavam, morriam. Embora Jason só tenha entrado na franquia no segundo longa, ele seguia a escola de Michael Meyers e nunca corria. Mesmo assim, sempre alcançava as vítimas e parecia imune a qualquer reação. O humor dos filmes surgia involuntariamente. Halloween, Sexta-Feira 13 e várias outras séries de filmes do gênero tinham uma coisa em comum: elas se levavam muito a sério. Com o final dos anos 80 e já com duas décadas de existência, os slashers viraram uma vítima da quantidade aparentemente infinita de sequências, que apenas repetiam o mesmo massacre, incansavelmente. Os tempos mudaram e as pessoas se cansaram.

Scream Again

Nos anos 90 o cinema de horror vivia uma imensa crise. De 1990 até 1995, o mundo presenciou sequências desesperadas como Jason Vai Para o Inferno e loucuras coletivas como as múltiplas e descontroladas adaptações de Stephen King, que iam desde ratos gigantes até uma passadeira assassina (sim, você leu isso mesmo). A Hora do Pesadelo (a genial ideia do diretor Wes Craven) estava na sua sexta sequência. Porém, as tentativas falhavam uma após a outra. Os slashers ainda assustavam, mas os medos da sociedade já eram outros e haviam reconfigurado os códigos da cultura pop.

Foi aí que o até então desconhecido roteirista Kevin Williamson impressionou Wes Craven com um roteiro que fazia pelo slasher o que ninguém tinha conseguido ainda: honrar suas origens e regras, mas, ao mesmo tempo, subverte-las usando humor e metalinguagem.

Do you like scary movies?

Em Pânico havia um assassino mascarado, assim como em Halloween e Sexta-Feira 13. Contudo, ele falava durante o filme, era inteligente, articulado e uma pessoa de verdade, ou seja, corria e apanhava. Sua fantasia, máscara, objetivo, honravam os slashers. Seu texto e sua natureza não-sobrenatural, eram a transgressão. Ghostface era um personagem que ainda tinha a maior vantagem de todas: ele sempre seria desmascarado no final.

Final Girl, personagem feminina que é perseguida em todos os filmes de uma franquia, também existia em Pânico. Sidney (Neve Campbell) era o alvo por conta de algo que aconteceu no primeiro longa e a ação final era sempre dela. Aí estava a honraria ao gênero. Contudo, Sidney não era a única Final Girl: Gale (Courtney Cox) também sempre sobrevivia. Ao lado das duas, um Final Boy; Dewey (David Arquette). E o melhor disso: Gale era uma “vilã” e Dewey era um “loser”. O trio representava o estereotipo e logo depois, quebrava com ele, resistindo aos ataques filme após filme. Sidney, sobretudo, se tornou uma referência de protagonista que enfrenta e não se vitimiza.

A morte gratuita e extremamente visual também sempre foi um traço forte dos slashers. Em Pânico, Wes Craven sempre insistiu que os ataques fossem bem mais sangrentos do que eles acabavam sendo (o estúdio sempre quer classificações menores). Em Pânico 4, inclusive, Craven conseguiu ser bem mais gore que nos anteriores e é ótimo saber que o último da franquia dirigido por ele também tenha sido aquele que também o redimiu. Pânico 4 é tão bom quanto o primeiro. Então, ao mesmo tempo que honra a finitude das vítimas (as pessoas morrem mesmo), Pânico transgride dando aos personagens um texto sagaz e esperto que usa a própria cultura cinematográfica como base cômica. Assim, sabemos que Tatum (Rose McGowan) vai morrer na garagem. Mas, antes disso ela diz uma das frases mais deliciosas da franquia: “Por favor, não me mate. Eu quero estar na sequência”.

Assassino com fraquezas, adolescentes inteligentes, sequências fora da obviedade... Quando Pânico estreou, em 1996, a crítica levou um susto. A abertura do primeiro filme, com aquele diálogo incrível entre Drew Barrymore e o assassino, que culmina com a assustadora morte dela, se tornou uma das peças cinematográficas mais emblemáticas da história do cinema. Era cultura pop explodindo para todo lado, de um jeito que conseguia deixar os fãs inebriados. E o mais fascinante é que tudo isso sempre partia de uma premissa absolutamente funesta: ainda tem gente sendo esfaqueada e estamos ali, sentados na poltrona, vibrando. Só grandes artistas conseguem esse feito: nos fazer ver a arte em meio ao caos sanguíneo.

A partir de 1996, os slashers precisaram se reinventar. O público não aceitava mais final girls passivas que só saíam gritando e assassinos sobrenaturais que perseguiam pessoas mudos e tranquilos. Pânico estabeleceu novas regras quebrando algumas; e volta e meia, quando um novo slasher surge nas telas, não é incomum que críticos usem a criação de Kevin Williamson e Wes Craven como base de comparação. Sidney Prescott faz com Ghostface o que a fantasia de Quentin Tarantino em Era Uma Vez em Hollywood fez com os seguidores de Manson: ela revida e vence. E enquanto isso, em meio ao texto de tiradas que nos desafiam, nos relembra toda vez de uma coisa da qual temos um imenso orgulho: como é bom ser fã.

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Fonte Omelete